quinta-feira, 11 de junho de 2015

Libertinagem


O grito lança meu sufoco fora
Desejo gritar entre os bosques verdes,
abismos, marés de estátuas, mas vedes
a massa que estuda as feições agora.
Tento, em vão, fugir. Mensurar-me em poesia.
Espero o que esmero, esse dia há de chegar,
mesmo que o penar seja o tempo passar,
ao longe o vejo, e não suporto o dia a dia.
As minhas antigas musas vão se indo
com o frio das noites dos tempos breves,
só basta abortar o ódio sorrindo.
Cá, à minguar, tudo peço que me leves
que eu perca o meu grito a ir-se ao ar caindo
nas linhas do tempo, o que, assim, escreves.

Mandamentos do poeta


Não há de faltar algum dia
angústia em teu caminhar,
e hás de sorrir, se sorria,
o ser que lhe ensinou a andar.
Não hás de ostentar nostalgia
se muito lhe falta de amar;
suporte, pois, toda alegria
que basta ao mundo por sonhar.
Nem hás de buscar a valia
valorando o vasto vulgar,
irás encontrar o que espia
no berço, por teu regressar.
Não há de faltar algum dia
suspiros por teu revelar,
e hás de chorar, se sorria
o ser que inventou poetar!

Homem evoluído


Apático e esquelético
dimetrodonte explanado
animado superior,
sou o que sou.
Monto-me no passo
na aurora vou, na evolução
sou o que é e sigo,
senhor do titã
medo do inimigo
mente desvairada.
Sou estranho
Sou a cruz
Sou a espada
sou despesa, não sou ganho.
Inconscientemente inescrupuloso
temperado da insônia
espasmando meus olhos,
hominídio infeliz,
assassino feroz!
A caça e
o caçador,
que sou doutor
que nada sou,
analisando, minuciosamente,
sei que sou.
Anatomicamente ajo
aparentemente penso,
soláspero arrepio
tenente reagir
expurgo de mim mesmo.
Que sou agora?

Pro-lixo


Quando assisti as velas antigas
no candelabro se demonstrarem
em tom Verano, ao Lá se calarem
os instrumentos sobre as cantigas,
repercebi desalmadas intrigas
(nem vós tem percepções melhores)
te vem sem medo ver meus lugares
e te limpas, do tédio, instigas!
Setembro, outubro, novembro
e lembro dezembro
e seus panetones,
me desce melhor um fondue.
De fato, minha liberté
jaz quente com minha fé
e toda letra a qual lembro.
Fustigas, inspiras, castigas
o bailarino e seu estandarte
sugando, lhe estrai a arte
e o nexo oposto ligas.
Larga isso aí!
Vai ser feliz,
ver a vida como é.
Ponha o chão no teu pé
e enrosque-te analfabetismo.

Nunca feche o cruzamento

Nunca feche o cruzamento,
recue às calçadas na viagem,
não há estrada
por onde há mato
Não há bicho após o ato,
há nada.
Vários instrumentistas sonham
o som cósmico, a juventude.
Dá a sensação dos movimentos
do mundo modificado:
a racionalidade, o poder, a emoção!
No muro de concreto, fractal, está escrito
o sumiço da noite no sertão de São João,
os suplícios que abolira a desventura.
A face do Sol da cidade da África do Sul,
os pretos azuis, o armistício,
a bienal dos artrópodes em ressaca,
o líquido cefalorraquidiano,
a lei natural dos filhos de José...
Havia uma vassoura segurando uma senhora
O reflexo do Brasil no asfalto,
degenerescência nova,
e um fevereiro eclesiástico.

Prime people


Do mundo o que é real não vive muito
para pictografar abutres.
Ante a imagem dos quatro ventos
a imagem negra crepita, gnóstica;
antes que os olhos flagrem, como vulturinos
a mão da morte assalta
mote, retina e chance
vão-se pelo pó da guerra.
Na terra de baixo a pele escoa
somente, calcificada
como os frios lábios desposados morrem
à plácidas dores suplantados,
resignam.
Nas entrelinhas de uma atitude pessoal
silencia o tempo e comem luz com a cara, paulatinamente
a ser vitória magnífica sobre mar e mangue
esmagando caranguejos, dia após dia.

A Capital


Quando fores para a Casa do Machado de dois gumes
compres um cofre para o teu dinheiro
um esqueiro para o teu charuto
uma luva para tuas mãos
e saliva para tuas leis.
Compres também seis tamancos para os átrios do palácio
e um gentil, que referende teu nome
pelos mármores por onde porás os pés.
Entretanto, Homero, é vã Creta,
pois se todo tanto intento é tudo tido
quem viu a barra do vestido
de Helena?
Então façamos assim: esqueçais tudo e fujais,
ao paraíso dos neandertais e mórbidos colossos ferve
um caldo que relaxa o corpo
para os que compram o caldo que relaxa o corpo,
longe da espúria plebe, nas linhas de montagem da felicidade alheia.
Quero que esqueçais teu filho, teu seio, teu fértil fruto
os setores das iniciativas privadas
os financiamentos, a especulação, a propriedade
a balança comercial favorável, a diplomacia, o poder bélico
as prerrogativas de campanhas progressistas e o Estado de políticas públicas.
Somente suma, em suma durma.
Sem perder, sem sofrer, sem pertencer.
Autoantropofágico, antropocênico, antropocêntrico.
Egoísta, antisincretista, sadomasoquista.
Para nascer e viver e morrer
na esquina das responsabilidades e cruzamentos de uma revolução caótica
Basta ser
E não ser.
Inútil ser.

O pico


Sou a neblina de um pico que em emerso
Monte, se estático uma aurora alcança,
Prumo-o à virtude tal que aos céus o lança
Por cume, dentre os cumes do Universo.
Ora, vergaram-me minha vida em nuança
Tão valente como um grão no ar disperso
Com fragrâncias a mais, de verso em verso,
E às crenças de uma prostrada esperança.
Caminhando no vento não ousei
Olhar para o que erige a caminhada
Ou para dentro do que sou e sei.
O grão não tornará morro sem nada
Que o faça persistir difuso à lei
Da solitude de uma madrugada.

Da falsidade das promessas


Postos nas mãos das pessoas que amamos
E já convicto não se pode dizer
Que com elas junto se pode ser,
Que somos quem seríamos que sonhamos.
Confia, e te basta um instante em sofrer
Penas, das juras que solenes damos;
E, quando pela decepção vamos,
Um não há que te possa o bem querer.
Diluir o peito, que em poeira será,
Das íntimas falhas a angústia clama
Sustenido amor, mas pranto virá.
Por nada que cesse em si se derrama
Eterno, eternamente verá
Incólume amor temperar tua lama.

Intruso degredado desse estado,
Distante da tormenta que se encerra,
Pudera eu ser melhor luz e pudera
Ser maior luz que a maior luz de um fado!

Pois quando quis ferir mais fui amado,
E em mim vi quando amei que o mau opera;
Enquanto o próprio peito são que era
Seu mote fez da vida contestado.

Na folha vaza o orvalho que estivera
Às mãos de Jove, à nau, em gota grossa,
Trasladou pela terra e aos céus volvera;

Também comigo o remorso remoça
Provando-me as virtudes por austera
Que estagnar destino se não possa.