terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Via crucis

                                                                      Sugestão de trilha sonorahttps://www.youtube.com/watch?v=aCFnzSCzoYA

Na cidade se integra lixo:
canteiros aterrados,
surpreendentes furtos
sorrisos curtos,
medo fixo.

Dentro do meu quarto e o progresso tecnológico
um ser escatológico
se engendra.

Recrudescendo
aos poucos vai meu sentimento
pelos pés da multidão ornamentada
e irizado um câncer na alma, pela maligna ira
que um cão velou soldado, meu sufoco, ainda respira.
E no raso escuro de toda a treva
um grito que vara o horizonte,
subserviente Anacreonte,
arpoa Eva.

Aos poetas que contemplam estrelas de um céu inóspito
morrerão, desnudos diante à noite,
pois que o dia é um raio açoite
a prorrompe-las...
Pois que sozinhos - os anticristos -
manifestos na rua vaga
Tão calados e distantes sobretudo.
Sem nenhuma chance.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Toda melancolia

                                                                                 Sugestão de trilha sonora: https://www.youtube.com/watch?v=vQVeaIHWWck

Haverá, senhora, o tempo em que dirás nunca.
Se algum torpor abraçar teu peito
Se estiverdes certa do quando podes ser triste,
Dirás nunca à melancolia...

O teu filho partirá teu corpo num suspiro ágil
E quando a febre lhe atingir misteriosamente
Lembrarás do nunca, eu imagino
Quando perderes o orvalho numa folha de figo.

À tua mão a réstia de um fogo breve
E pelos pés num manto o acúmulo de fracassos,
Então virás a mancha da agonia...

Pelas ruas o assombro parte em frente à tua vida
E se se lembras do quão nunca é todo pranto
Desvelar-se-á a morte em sincronia.

Último canto

                                                                                  Sugestão de trilha sonorahttps://www.youtube.com/watch?v=39DNaNAMKAU

Aqueles que perduraram até o tempo presente
Aparentemente diferem a lágrima
dos povos todos, da estática aurora,
e se incrementam compilados no nada.
Há de se glorificar a moça
que, de um remorso cativo,
subjetivou o estorvo sobrevivência.

Quando a escuridão pairou sob os lares
nenhuma alma inquieta sorriu.
Um hino não ressoou
Não viram a dor entrar, na periferia sólida
por dentro do peito um sorriso
morria murcho.

Um ébrio saltou à esquina, e caiu
perante esforços vagos de recuperar suas chances,
quando lâminas de sangue surgiram do céu
ninguém dormiu.

Os inocentes temiam a morte, temiam amar o mundo
Mas agora, que o têm,
primam pela força violenta,
só agora o movimento é uma rocha infante
Significante, significativo estuporador de momento.

Seu capital comprou as ilustres praças
e nenhum galho tornou ao fronde
de onde partira, extasiado.
Só não roubou a letra que desceu firme no enfado último, suspiro austero
quando os grilhões sedimentaram o vento
e, melancólico, rasgou a terra...
sob os túmulos plantados eternamente permanecemos.

Perfecto

                                                                                  Sugestão de trilha sonorahttps://www.youtube.com/watch?v=MPvS0g2papI
                                                                                                                  
                                                                                                                 “Inter peritura vivimus"
                                                                                                                                             Sêneca
Era início da autópsia. A diploide
Obstipada em contato ao pterígio
Em secreção do constante fastígio
Do endomísio ao linfoma à tireoide...
            
No trauma, a bifurcação no basilar,
O periósteo infindo ligando o lienal
Senil; no pênis, do apetite sexual,
Cravada a decídua deixou-se encontrar.
            
Das mucosas e sebáceas laríngeas
No epicôndilo, que já em hiperplasias,
Pariu-se as teralogias esfígeas.
            
Há exsanguinotransfusão em herniorrafias
E, no precórdio, a hipófise que tinge-as
Do encéfalo, com sangue de hemorragias.

Cabelo

Todos acham, nos fios de suas belezas,
O cabelo negro e fosco:
No olho dilatado ofusco
A tristeza de todas as tristezas.
            
Me parto inteiro de impurezas,
Castigo o ato maldito de mastigar
O nutriz do viver, sustentar
A gordura ao invés das magrezas.
            
Enquanto vou vivendo elástico e afore,
Como um passageiro sem hora nem data,
Meu rústico cabelo morre...
            
E vai ficando branco e prata...
Falsa anomalia coliforme,
Gélida vida que se mata.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Os estelares

                                                                                 Sugestão de trilha sonorahttps://www.youtube.com/watch?v=z_dEGxRs3lU

Somos estelares, menina,
Numa estética modernista
Ultrapassando vicissitudes
e consumindo conquistas.
Para trás os corpos todos
dos que ontem foram
para o mundo e não são mais
animados, animais.

O passo da alvorada ao nosso alcance
Um reflexo do tempo num relance
e já nada nos mais pertence,
senão um trágico empirismo.

Do universo teço um céu de rotas,
Crio contigo um paralelismo.
Num altruísmo
fulgura a face de Deus!

Pelas batidas do coração caindo vamos
perdendo a guerra injusta,
e a capacidade engajada à palma
escorre pelo chão dos lares.
Certamente não choramos – os estelares
- sumimos, confluentes nos clamores
por não clamares.
As coibições, confissões latentes, menina,
as lutas superiores
Pela memória das gerações
Esquecer-se-ão delas.
Mas as estrelas se apresentam pelo quarto crescente
à todas as cortes de lembrança ao céu
e o horizonte se espelha nas mãos.

Somos todos estelares
só que alguns mais, outros menos,
por isso morremos
e vivemos dores.

Não somos atores
Não somos o que temos
Não somos flores.

Não somos mais nem menos
Não somos o que queremos
Não somos amores.

Somos estrelas maravilhosas
que de uma noite frondosa
romperam!

Cadentes, nas entrelinhas,
umas caíram sozinhas
outra caírem esperam.

As estrelas tortas, do esquecimento,
desses pontos luminosos a traçarem curvilíneas,
a noite, de porta em porta
pelo pálio descendentes, do cosmos e, de repente
aborta.

Enamoradas se entregam
arremedam ilusões,
Os estelares são clarões
para os que a musa enxergam.

Adornando a paisagem
cinematograficamente bastam,
Por fagulhas de dureza bélica
as estrelas são trágicas.

Fatídicas, enigmáticas:
a semelhança do que é entrega
ao contrariar a náusea
da mortalha que se carrega.

Somos todos estelares, menina,
ofuscados eternamente
pelo sol da senda cega
e o tempo que determina
quem ascende e quem se inclina
quem deveras dor não sente.

Et transite vobis dignus

                                                                                 Sugestão de trilha sonorahttps://www.youtube.com/watch?v=k1-TrAvp_xs

A nós, que somos forjados na dor,
acostumados a sofrer diariamente
em formas avulsas sutis,
nas árduas culpas remanescentes.
Ainda não provamos da angústia!

Portanto trate-me assim como tu tratas
O pó, que do vento vem de leve
acariciar tua alma.
Portanto não me dirija palavra
que ponha-me ao chão de novo
ao revés de um estranho sonho.

Antes de ter por tudo, lhe dizer quero:
Prefiro ofertar-lhe o desespero
que furta-me e o remédio
do estuporador caminho.
Pelas cruzes que levamos
E que, ser acreditamos,
Sustentáculo da vida!

Assassino do abstrato,
Construí as minhas linhas
suplicando a recessão
da dor do físico fato.

Justificas-me ao nada estar atento
pelas vozes que sussurram dissabor
às suas quimeras.

E no que me dá querida morte fria
Que me apraz somente tê-la em alegria
Sendo-a como não se pode ser com a vida?

Me sufoco na cadência desprovida,
para só, por ti, sorrindo ser saída
pela morte em minha branda nostalgia.

E renasço e vou ao ventre e vou não sendo
o pecado desvairado pelo pranto
pelo golpe que não vai mais se doendo...

Vejam todos que vivi aquele tempo
Mas me agora não há tempo senão quando
O tempo em que estou morrendo.